Os antigos escribas
“Bom tempo se passou desde que os escribas com seu ofício representaram o mais alto grau do saber humano, sua perpetuação e difusão. Imaginemos um sujeito deste copiando minuciosamente uma obra extensa como uma bíblia por exemplo. Trabalho hercúleo e nobre. Estes homens incansáveis, com suas penas em punho, imortalizaram pensamentos, ideias, conceitos, dogmas, tradições e culturas inteiras em seu labor detalhista e edificante, levando à posteridade suas tradições através de registros históricos. Um nobre, quando queria uma cópia de alguma obra escrita específica, recorria infalivelmente a esta casta de seres dedicados à escrita. Trabalho árduo. Escrevia-se em papiros, em pedra, em couro, sempre no intuito de levar adiante as coisas mais notáveis e célebres do gênero humano.
Escriba ou escrivão era a pessoa na Antiguidade que dominava a escrita e a usava, quase sempre, a mando do regente para redigir as normas do povo de uma determinada região ou religião, além de tomar notas de tudo que fosse importante e precisasse ser guardado enquanto dado e informação. Função de alta especificidade e grande dedicação, o trabalho de escriba era importantíssimo para estas organizações de cultura e poder, onde acabavam por trabalhar próximos aos homens e mulheres influentes da história através dos tempos, interagindo diretamente com leis, mandamentos morais e espirituais, tratados de guerra e paz, missivas, clemências, condolências, inventários, partilhas, juramentos, doações, contendas, rezas, matrimônios, acontecimentos célebres, enfim, tudo que requeresse alguma mensagem escrita documental. Os escribas também podiam exercer as funções de contadores, secretários, copistas, arquivistas e até mesmo escritores.
Imaginemos ter que ficar horas e horas, dias, meses e até anos, redigindo escritos, copiando textos, preparando documentos históricos ou sagrados, iluminados, quem sabe, pelas parcas lamparinas na aurora do saber humano era, sem sombra de dúvida, algo assim, no mínimo fabuloso. Ainda mais se considerarmos a era digital em que vivemos hoje com a velocidade e a volatilidade da informação enquanto impulso eletrônico, viajando pelo Planeta a altíssima velocidade, nas bandas largas da vida contemporânea. Como o tempo passou, e como os nossos hábitos mudaram! Vivemos hoje numa teia eletrônica que interconecta tudo e todos, ou quase isso, onde infelizmente a grande quantidade de informação disponível não quer dizer necessariamente qualidade.”
Alexandre Quaresma
https://blog-do-escriba.blogspot.com.br/2009/04/os-escribas.html
ALEXANDRE QUARESMA é pesquisador de tecnologias e impactos sociais e ambientais, membro ativista da Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente (RENANOSOMA), e vinculado à Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera (FDB). Autor dos livros "A Testemunha", "Nanocaos e a Responsabilidade Global" e "Nanotecnologias: Zênite ou Nadir?"